
No Fórum Econômico Mundial em Davos, Suíça, a conversa em torno da inteligência artificial (artificial intelligence) tomou um rumo brusco, saindo do otimismo desenfreado para um realismo severo. Chuck Robbins, CEO da Cisco Systems, apresentou uma previsão sóbria para o setor de AI em ascensão. Ao afirmar que o impacto da tecnologia acabará por superar o da internet, Robbins avisou que a dinâmica atual do mercado tem as marcas de uma bolha financeira clássica.
Em uma entrevista à BBC, o líder da tecnologia previu que o caminho para a maturidade da AI será pavimentado tanto por histórias de sucesso massivas quanto por falhas corporativas significativas. "Vencedores emergem, e há carnificina ao longo do caminho", declarou Robbins, traçando um paralelo direto com o colapso das dotcom no início dos anos 2000. Seus comentários surgem em um momento crítico, quando o investimento global em AI generativa (generative AI) atingiu um pico febril, levantando questões sobre sustentabilidade e retorno sobre investimento.
A avaliação de Robbins reconhece o poder transformador da AI ao mesmo tempo em que adverte contra o entusiasmo irracional que atualmente impulsiona as avaliações. Ele observou que, embora a tecnologia em si seja revolucionária — potencialmente "maior que a internet" — a corrida para capitalizá-la criou um ambiente onde o capital flui de maneira ineficiente.
O Cisco chief executive destacou que, assim como na era da internet, a fase inicial de hype atrai uma enxurrada de empresas, muitas das quais não possuem modelos de negócio viáveis a longo prazo. "O mercado atual provavelmente é uma bolha e algumas empresas não vão sobreviver", afirmou. No entanto, ele enfatizou que essa "carnificina" é uma parte natural do ciclo de vida tecnológico. O colapso de empreendimentos mais fracos frequentemente precede o surgimento de gigantes duradouros da indústria que conseguem integrar a tecnologia em aplicações práticas e geradoras de valor.
Como chefe de uma empresa que produz a infraestrutura essencial de redes e segurança que possibilita a revolução da AI, Robbins oferece um ponto de vista único. A Cisco opera como a "canalização" do mundo digital, dando-lhe visibilidade sobre a adoção real pelas empresas em contraste com o ruído de marketing.
Robbins apontou que, embora investimentos especulativos possam fracassar, a demanda por robusto investimento em AI em infraestrutura permanece enraizada na realidade. As empresas estão passando da experimentação para a implantação, o que exige atualizações em data centers, conectividade e cibersegurança. Ele notou especificamente o surgimento de "nuvens soberanas" e a necessidade crescente de fundir a segurança diretamente na camada de rede para lidar com agentes de AI em tempo real.
A tabela a seguir delineia o contraste que Robbins traça entre a natureza especulativa do mercado atual e as mudanças fundamentais ocorrendo por baixo:
Tabela: A Dicotomia do Mercado de AI
| Market Aspect | Speculative Bubble (The Carnage) | Sustainable Growth (The Winners) |
|---|---|---|
| Investment Focus | Hype-driven funding for unproven startups | Strategic infrastructure and tangible use cases |
| Business Model | Reliant on future promises and user acquisition | Focused on immediate efficiency and revenue generation |
| Outcome | Bankruptcy and consolidation (similar to Dotcom) | Evolution of new applications (similar to iPhone era) |
| Key Driver | FOMO (Fear Of Missing Out) | Operational necessity and competitive advantage |
Além dos mercados financeiros, Robbins abordou a ansiedade em torno do mercado de trabalho. Ele foi franco sobre as disrupções que a AI causará, afirmando que alguns empregos inevitavelmente serão mudados ou "eliminados", particularmente em setores como atendimento ao cliente, onde as empresas exigirão "menos pessoas".
No entanto, sua perspectiva sobre a força de trabalho não foi inteiramente sombria. Robbins instou os trabalhadores a "abraçar em vez de temer" a tecnologia. Ele comparou a transição atual a mudanças industriais anteriores, nas quais a tecnologia acabou criando novas categorias de emprego anteriormente inimagináveis. O desafio, segundo Robbins, reside na velocidade dessa transição, exigindo estratégias proativas de requalificação e reciclagem da força de trabalho para se adaptar a um ambiente aumentado por AI.
Robbins não está sozinho em sua postura cautelosa. Seus comentários ecoam sentimentos recentes de outros titãs da indústria de tecnologia. O CEO do JPMorgan Chase, Jamie Dimon, observou recentemente que parte do dinheiro investido em AI "provavelmente será perdido", enquanto o CEO da Alphabet, Sundar Pichai, reconheceu a "irracionalidade" no boom atual.
Esse consenso crescente entre as lideranças sugere uma mudança de narrativa. A fase de "construa e eles virão" está se transformando em um período de escrutínio, onde investidores e conselhos começam a exigir prova de valor. A "carnificina" que Robbins prevê pode muito bem ser a forma do mercado se autocorrigir, filtrando o ruído para revelar a verdadeira utilidade da inteligência artificial.
Da perspectiva da Creati.ai, o alerta de Robbins serve como um lembrete vital da importância de fundamentar o desenvolvimento de AI na utilidade e na ética. A "bolha de AI" que ele descreve é um sintoma de excesso especulativo, não uma condenação da tecnologia em si.
Para desenvolvedores, investidores e empresas, a mensagem é clara: a era do dinheiro fácil pode estar terminando, mas a era do impacto real está apenas começando. Aqueles que se concentraram em construir soluções de AI sustentáveis, seguras e genuinamente úteis — em vez de perseguir o hype — serão os que emergirão da correção que se aproxima como os vencedores definitivos da próxima era tecnológica.